Setembro 2026
Reparto mexeu forte comigo, e ver o Ninho de Minhocas sendo cama para o trabalho de Ana Mendieta ainda é difícil de explicar.
Ninho de Minhocas veio ao mundo num desenho de 2022 que eu nem lembrava que tinha feito - o reencontrei recentemente. No ano passado, ele ganhou fisicalidade pelas mãos de muitas amigas, que doaram tempo para encher cada uma dessas tripas.
Eu o apresentei pela primeira vez no Museu do Amanhã, em Carne da Terra. E é aí que entra Mendieta. Seus trabalhos em que corpo e terra deixam de existir como coisas separadas foram parte fundamental da minha pesquisa. Daqueles encontros que mudam um pouco o jeito como a gente entende o que pode fazer.
A curadora Gabriela Davies escreveu sobre minha obra: “Existe aí uma aproximação entre o que acontece dentro de nós e o que acontece na terra — como se corpo e solo obedecessem a processos semelhantes de transformação.”
Eu já olhei para esse ninho como útero, terra, minhocário, tripa, entranha, abrigo e corpo que se mistura ao ambiente, que pode ser penetrado, ocupado, deformado, enterrado, desmontado e transformado. Ontem encontrei nele uma cama para uma artista que, tantos anos antes, abriu caminhos para que eu pudesse pensar corpo e terra juntos. E, em Reparto, Mendieta passa, por algumas horas, a habitar meu trabalho.
Obrigada, Comadres. Que linda exposição vocês pariram.
Janeiro 2025
Pintar é não ter medo de perder.
Mangue, 2022

nanquim sobre papel; desenho de projeto de pintura

nanquim sobre papel; desenho de projeto de pintura


nanquim sobre papel; desenho de projeto de pintura
Setembro 2022
Eu vejo a pintura como uma mídia que estabelece diálogos, consigo mesma e com o mundo exterior, expandindo a conversa por meio do observador, do contexto e da História da Arte. Desde 2014, tenho conduzido uma pesquisa intitulada 'CarneeCorpo', utilizando óleo sobre tela.
Em 2018, ampliei a relação entre figura e abstração e suas possibilidades: Quando a imagem é desmontada, o observador é capaz de criar uma narrativa e acessar o papel da pintora e participar enquanto um usuário, tornando-se interator da obra. Nessa época, comecei a expandir minha pesquisa, explorando novas formas de ampliar o ambiente da pintura, através do uso de tecnologias como a Realidade Aumentada e Pinturas Imersivas (360°), acessíveis através de óculos de Realidade Virtual. Atualmente, estou buscando ampliar ainda mais as possibilidades da pintura, permitindo que a tela se desenvolva no espaço físico.
Entendo 'Sistema' como um conjunto de elementos interconectados, e estou interessada em decifrar o significado e a função de cada elemento em seu contexto, a fim de compreender como o todo funciona como um sistema. Eu acredito que, ao tocar o verdadeiro caráter de cada elemento e seu papel no conjunto, somos capazes de fazer com que o sistema atue de forma diferente.
Para a maioria dos meus trabalhos, estou desenvolvendo buscando uma nova maneira de pensar sobre a pintura e considerando-a como um sistema próprio. Eu estabeleci a Carne da pintura como um local de desejo, fragmentação, ilusão, força e independência própria; e o Corpo como motivo, contexto, conteúdo, território, limites e possibilidades de extensão.
CarneeCorpo trabalha com as tensões entre a aproximação de imagens e sua natureza visceral, combinando imagens da internet, perspectivas sociais e históricas, representações e reimaginações da mulher, bem como pulsões de desejos e dores. Juntas, elas tensionam o espaço entre o imaginário e o real, o entrar e o sair, o passado e o presente - o Corpo como um invólucro e a Carne como o material das Coisas. Carne da Terra avança sobre o território celebrando a Natureza e sua fertilidade.
Útero, 2018



